O Circo Nerino estreou em Curtiba (PR), no ano de 1913, e apresentou seu último espetáculo na cidade de Cruzeiro (SP), em 1964. Durante quase 52 anos, num vai e vem contínuo, circulou por todo o país. Viajou de trem, navio, barcaça e, por fim, de caminhão por estradas de terra que na época, eram de terra mesmo. E numa época em que o circo era o maior, quando não único, espetáculo das terras do Brasil.
Ao longo da sua trajetória, o Nerino teve seus dias de glória, e foi conquistando, pelo Brasil afora, fiéis admiradores, para quem "circo era o Nerino", "o mais querido circo do Brasil". Os mais ardorosos chegavam a hostilizar outros circos, não os pequenos, mas os do porte do seu ídolo, como por exemplo, o Circo Garcia que na década de 1940, como o Nerino, circulava pelo nordeste.
Antolin Garcia contava que, armando seu circo numa cidadezinha do nordeste, um grupo de pessoas que se aglomerou no terreno ficava fazendo, em alto tom, comparações entre o seu circo e o Nerino. Sempre puxando a sardinha para o segundo:
• O gerador do Nerino é muito mais potente.
• O Nerino tem muito mais caminhões.
• A lona do Nerino é maior. Muito maior.
Antolin, que não levava desaforo pra casa, sugeriu ao grupo que fosse erguer uma estátua em homenagem ao Nerino e o deixassem trabalhar em paz.
O Circo Nerino teve seus dias de glória, e ao longo da sua trajetória foi conquistando, pelo Brasil afora, a simpatia de fieis admiradores, para quem "circo era o Nerino", "o mais querido circo do Brasil". E ai daquele que ousasse ofuscar o seu brilho. Não os pequenos, mas os do seu porte, como o Circo Garcia que na década de 1940, também circulava pelo nordeste.
Pelo que nos consta, a tal estátua não foi esculpida, mas é bem provável que o Circo Nerino tenha inspirado escultores por esse Brasil afora. Como inspirou poetas, atores, dramaturgos, pintores, sendo que alguns, como Bajado, um artista de Olinda, explicitaram em sua obra a fonte de sua inspiração: Circo Nerino.
No final do ano de 1969, os habitantes da pequena Olinda receberam a visita de um velho conhecido: o Circo Garcia, que lhes trouxe lembranças de outros circos que os visitavam no passado. Ruth Telles, por exemplo, lembrou-se imediatamente do circo da sua infância, o Nerino. Mãe de duas meninas, ela queria apresentar o circo às filhas, mas como era da torcida do Nerino relutou em ir ao Garcia, já que a turma do Nerino sempre implicou com o Garcia. Mas como há quase 20 anos, o Nerino não aparecia, ela resolveu ir ao Garcia. Quando passava pela portaria, olhou distraidamente para o porteiro enquanto lhe entregava os ingressos e no mesmo instante o reconheceu:
• Seu Gaetan!
E ele respondeu com aquela sua voz rouca:
• A senhora me conhece?
• Seu Gaetan, o que é que o senhor está fazendo no Circo Garcia? Cadê o Circo Nerino?
Foi só então que ela teve a certeza do que há muito desconfiava: o Circo Nerino não mais existia.
• Seu Gaetan, cadê Bozan? Cadê Pingüim? Cadê Roger?
• Roger também está aqui no Garcia.
Ele chamou alguém para ficar na portaria e levou Ruth e suas filhas para um camarote. Ela comentou consigo própria: ah, meu Deus, vou ter que ficar aqui? Porque como apreciadora de circo que ela é, prefere o poleiro, de onde se tem uma visão muito melhor do picadeiro. Mas não podia fazer esta desfeita com o velho Gaetan. No intervalo, ele veio vender pipocas, pirulitos, balas.
• Seu Gaetan, cadê Roger?
• Você acabou de ver.
• Vi não.
• Viu sim!
Quando o espetáculo terminou, ele pegou na mão dela e a levou aos camarins. Foi então que ela viu Roger, com uma toalha na mão, tirando a maquiagem de palhaço. O galã do Circo Nerino, o moço que sabia tão bem se equilibrar sobre as ancas de um cavalo, era agora palhaço.
Ruth Telles não era a única a saber que parte do clã Nerino estava no Garcia. É bem provável que outros tenham reconhecido Gaetan e, através dele, descoberto que o palhaço de hoje era o galã de outrora. E havia também os amigos - a família Nerino fizera grande amizade no Recife - que, mesmo de longe, acompanharam o desenrolar da história. Que sabiam que há muito Roger substituira o pai, Nerino Avanzi, como o palhaço Picolino. Que o anão Pingüim (não confundir com Willy Avanzi Silva que na infância tinha o apelido de Pingüim), com quem ele formava a engraçadíssima dupla de palhaços, Picolino e Pingüim, foi adotado pela família, quando o Circo Nerino esteve em Salinas, em Minas. Que o Circo Nerino encerrou carreira em 1964, e que o proprietário do Circo Garcia é tio da sua esposa, Anita. E que há poucos meses, sua mãe, Armandine e seu tio Gaetan, estão com ele no Garcia.
A imprensa pernambucana, que tantas vezes anunciou as temporadas brilhantes que o Circo Nerino realizara na capital e interior do estado, nada comentou sobre o assunto. Até que no dia 10 de março de 1970, oito dias depois do acontecido, o Diário de Pernambuco espalhou a notícia: Gaetan, o Grande Gaetan do Circo Nerino, tinha morrido.
O homem que em vida foi aplaudido por multidões, e que ainda em vida tornou-se lenda, foi velado no Recife por um pequeno grupo de amigos da cidade e o então reduzido elenco do Circo Garcia, na capela do Hospital Santa Maria, bairro de Cordeiro.
Roger Avanzi passou o dia providenciando os documentos para transportar o corpo do tio até João Pessoa, onde a família tinha um jazigo. Chegou ao velório no final da tarde. E logo que anoiteceu teve que ir para o circo porque naquela noite teve espetáculo. O espetáculo não pode parar, o espetáculo continua!
O palhaço que faz rir enquanto chora rendeu a criação de várias obras. Virou música, poesias, crônicas, romances, filmes, ópera e até clichê. Ride, pagliaci! Ride! Roger já era palhaço há 16 anos, decerto já havia experimentado o paradoxo de fazer rir com vontade de chorar. Mas nesta noite, rodando de bicicleta no picadeiro, ele abriu as comportas, deixou as lágrimas correrem soltas.
De madrugada, desmontou-se o velório. O caixão foi fechado e colocado na carroceria da caminhonete do Circo Garcia. O motorista, Roger, Armandine e uma amiga, Ceci Cordeiro, se apertaram no banco, e a caminhonete partiu. Atravessou a cidade do Recife, e pegou a estrada para João Pessoa.
Muitas e muitas vezes Gaetan atravessara aquela estrada. Desde a década de 1940, quando o Circo Nerino adquiriu os primeiros caminhões, até início da de 1950, no comando de uma caravana, a primeira caravana de circo do Brasil, que ele próprio ajudara construir. Quando não estava transportando material, que a carroceria do caminhão estava vazia, sempre dava carona. Agora era ele que seguia de carona. Uma vez, Gaetahn parou para um homem que estava levando um caixão de defunto nas costas. Como logo depois começou a chover, o homem se abrigou dentro do caixão, e, apesar dos solavancos, dormiu. Logo adiante, Gaetan parou novamente, desta vez para uns bóias frias. Eles subiram na carroceria, mas antes mesmo do caminhão arrancar, desceram correndo, porque o homem acordou e abriu a tampa do caixão.
De manhãzinha, a caminhonete chegou em João Pessoa, e logo depois, estacionava na frente do cemitério. Um grupo de pessoas se aproximou. Eram os rádios amadores, que souberam da morte de Gaetan através de uma colega do Recife, que se encarregara de espalhar a notícia, e que se chamava Nerina... Eles estranharam a solidão daquela caminhonete, esperavam uma carreata.
O sol já ia alto, os rádios amadores precisaram ir trabalhar, não puderam ficar até o final do ato. E assim Gaetan Ribolá, o homem da garganta de platina, que sustentava uma pirâmide humana de 5 homens, o herói da aviação francesa na primeira guerra mundial, a viga mestra do Circo Nerino, foi enterrado sem nenhuma pompa. Não teve salva de tiros, ramalhetes de flores, medalhas de ouro, discursos de autoridades civis, militares e eclesiásticas, nem aplausos daquele para quem ele dedicou sua vida: o respeitável público.
Recife, em 11 de março de 1970.
Meu bom amigo Sr. Roger Nerino:
A finalidade desta é expressar ao senhor e aos seus familiares os meus votos de profundo pesar pelo falecimento de seu tio, Sr. Gaetano Nerino. Figura que tive a honra de conhecer, em minha infância, no picadeiro do nosso querido e sempre lembrado Circo Nerino. (Que fim teve aquele famoso circo, hein, Sr. Róger?)
Lembro-me do senhor como o artista principal do Circo Nerino. Eu vibrava com o seu trabalho! Lembro-me também do garoto Pinguim, que foi meu colega de escola no Colégio Marista aqui no Recife, em 1942. Depois, já homem feito, ele passou a chamar-se Williams e trabalhava no trapézio. (Que fim levou aquele meu ex-colega de colégio? Está aí no "Garcia"?)
Lembro-me do velho e querido "Picolino" (Soube pelo jornal que o senhor hoje encarna aquela tradicional figura). Lembro-me, enfim, de uma porção de gente do "Nerino" na década de 1940 e início da de 1950.
Lendo o Diário de Pernambuco é que soube que o senhor faz parte do elenco do Circo Garcia. Lamento que só agora tenha sabido deste particular porque aquele circo esteve bem perto do bairro onde resido (Cordeiro). Assim perdi a oportunidade de ir ao "Garcia" para relembrar o tempo em que eu era assíduo freqüentador do "Nerino", quando este se instalava nos bairros da BOA VISTA (onde eu morava) e Santo Amaro.
De fato, Sr. Roger, sou e serei sempre um saudosista! Lembro-me do senhor trabalhando em "Os Dois Sargentos", "Paixão de Cristo" e "Milagres de Santo Antônio". Lembro-me do senhor no trapézio, na parte hípica (que elegância e perfeição!) e atlética do "Nerino". Que saudade, Sr. Roger!...
Hoje, tenho quase 39 anos de idade, sou casado, tenho um filhinho de oito meses e lamento que o meu garoto não tenha a sorte que tive em apreciar os grandes espetáculos de circo, principalmente do saudoso "Nerino".
Sr. Roger, lamento profundamente o passamento do Sr. Gaetano e mais ainda quando o desenlace se verificou bem próximo de minha casa, (na "Casa de Saúde Santa Maria") no Cordeiro. Aceite pois as minhas desculpas e condolências. E por favor responda esta carta, da maneira mais noticiosa que puder ser, dando informações de tudo e de toda aquela gente boa do "NERINO".
Receba um fraternal abraço do amigo
LUIZ S. LYRA
Secretaria da CÂMARA MUNICIPAL do RECIFE
PARQUE 13 de MAIO - RECIFE
N.B. Ao deixar o Recife, informe sempre para onde irá o Circo Garcia.
Roger Avanzi não respondeu a carta de Luiz S. Lyra, em compensação, documentou, da maneira mais noticiosa que pode, a trajetória do Circo Nerino. Fotografou, desenhou, colecionou, incitou o povo e as "autoridades civis, militares e eclesiásticas" a escrever suas impressões, registrou o deslocamento da companhia, num período de quase 30 anos, e, por fim, não deixou que esse material se perdesse ao longo dos anos.
Coube ao mim a honra de organizar este acervo e a memória de seu guardião, iniciando assim o processo que veio a gerar este livro.
Entrei no mundo do circo, no ano de 1979, quando me matriculei na primeira escola de circo do Brasil, Academia Piolin de Artes Circenses. Foi lá que, entre malabarismos, acrobacias, passes de mágica, e equilibrismo, fui iniciada na história do circo brasileiro através da história dos meus mestres e de suas respectivas famílias. Histórias que muitas vezes eles nos contavam, mostrando seus álbuns de fotografias.
O álbum de fotografias tem um valor inestimável para os circenses, principalmente para os velhos. Omitidos da história da arte, sem verbete nas enciclopédias, eles têm em seu álbum a única prova de um tempo de glória, quando foram aplaudidos por reis, governadores, interventores, bispos, prefeitos e o escambau. Jorge Amado, em seu romance Jubiabá, sabiamente mostra o velho circense Giusepe acariciando seu álbum com a mesma delicadeza que Balduino acaricia as coxas das mulatas. O amor de um circense pelo seu álbum é um amor quase carnal.
Conheci muitos álbuns na Academia Piolin, inclusive do Circo Nerino, onde Roger Avanzi, o palhaço Picolino, era professor de ciclismo e palhaço. Foi com ele que eu aprendi a andar de monociclo, a empatar a corda de um trapézio, e a fazer algumas reprises, quase todas que sei, como "Abelha, abelhinha", "Jornal" e "Pic Nic".
Em 1985, dei o nome de "Picolino" à escola de circo que fundei com Anselmo Serrat em Salvador (BA) em homenagem ao meu mestre, que há muito não via. E isso nos reaproximou. No início do ano seguinte realizei a primeira entrevista formal com ele. Foi quando comecei a perceber a dimensão do mito Circo Nerino. Mas somente nove anos depois, em 1995, que fizemos o pacto: vamos fazer um livro sobre o Circo Nerino.
Numa primeira fase, Roger me apresentou o seu acervo. O método adotado por ele consistia em me mostrar peça por peça, e contar as histórias que elas lhe suscitavam, tudo o que lhe vinha na cabeça, e que eu ia registrando. E era rigoroso em seu método. Eu só podia manusear uma peça depois dela ter sido apresentada por ele. E quando tinha que ir ao banheiro, ia desconfiado de que eu mexesse no seu tesouro durante sua ausência. Tempos depois, quando eu retornava com a história escrita, os papéis se inverteram. Eu não deixava ele ler sequer uma frase longe da minha pessoa, e quando precisava ir ao banheiro, levava os escritos comigo.
A partir da organização de forma temática e cronológica do acervo e dos depoimentos de Roger, foi feita uma pesquisa minuciosa na Biblioteca Nacional, em acervos de imprensa de todo país. Por fim, entre o final de 1996 e início do ano seguinte, viajei por várias cidades do norte e nordeste do Brasil, consultando acervos públicos e privados, entrevistando historiadores, artistas, jornalistas e aquele sem o qual o circo nem existiria, o público. E o respeitável público atendeu ao meu chamado, aplaudiu minha iniciativa:
"Maravilhosa a sua idéia de documentar, em livro, a história do Circo Nerino. Como pede subsídios, documento parcialmente a estada do Nerino em Camocim, no ano de 1946." (Artur Carneiro de Queirós)
"Em cumprimento ao nosso entendimento por telefone, estou enviando um sucinto histórico da temporada do Circo Nerino em Limoeiro do Norte, nos anos de 1944 e 1952. Sua pesquisa obteve notável repercussão em nosso estado. Louvamos esta feliz iniciativa do lançamento de um livro, e temos certeza que será sucesso total em todo o Brasil, pois o circo é para nós relevante centro cultural." (Meton Maia e Silva).
"Através do programa Ministério do Povo, tive a alegria de ouvi-la e quis atender ao seu apelo feito ao público, por isso, escrevo-lhe o que ficou em mim do Circo Nerino." (Maria Helena do Nascimento)
"Assistindo o noticiário regional, a pesquisadora Verônica Tamaoki solicitou a colaboração para o registro das memórias do Circo Nerino. De imediato, fui transportada para a época da minha juventude, em Itapetinga (BA). Como num filme colorido, as recordações foram aflorando. E eu senti a alegria desta fase da minha vida, proporcionada pelo Circo Nerino." (Dalva Pereira dos Santos)
"Quem conheceu o Circo Nerino, jamais o esquecerá. Eu tenho razões suficientes para nunca esquece-lo pois dei aos meus filhos, o mesmo nome dos filhos de seu Roger e dona Anita: Roger e Roseli." (Jacy J. Vieira)
"Apesar de não conhecê, sinto por você uma grande afeição por ter a oportunidade de falar sobre o Circo Nerino. Descrever os outros artistas não adianta, pois o proprietário, Sr. Rogê, é o melhor para indicar esses detalhes. Amiga, quero lhe pedir uma coisa: quando for publicado este grande livro ligue para mim ou escreva-me informando onde e como posso adquiri-lo, pois sou fã de romances dessa espécie. Tenho a Toutenegra do Moinho, a Mestiça, o Ébrio, A Cabana do Pai Tomás e outros mais." (Valdelice da Silva Cunha)
Estas cartas, entre outras que recebi, e os depoimentos que registrei, reafirmavam o mito Circo Nerino que estava vivo na memória de pessoas ainda vivas, e que com o passar dos anos, se fortalecera. Elas foram o "suspender da lua" do processo de criação e produção deste livro: os aplausos. O "raiar do sol" foi organizar, entrevistar, transcrever, escrever, selecionar, acrescentar, e buscar, buscar, buscar parcerias artísticas, políticas e econômicas que viabilizassem o espetáculo.
Nunca tive a intenção de fazer um livro de análise ou crítica, "um estudo histórico sobre a arte popular, o entretenimento e o lazer no século XX". Também nunca tive a pretensão de escrever uma biografia. Quase caí na tentação de fazer um romance da espécie que dona Valdelice é fã, algo como "A Toutenegra do Circo". Mas logo desisti, as verdadeiras lacunas existentes na nossa história sobre a trajetória do circo no Brasil não me permitiram transformar a documentação que tinha em mãos num romance. Mesmo porque a vida de um circo é em si um verdadeiro romance. Além disso, a sua memória, principalmente a que ficou nas lembranças do público, é romanesca, afetiva, quase que alucinógena. Um filme colorido como o de Dalva Pereira dos Santos.
Comecei então a construir este livro, selecionando as peças mais significativas do acervo, e os trechos mais pungentes da memória oral. E, de forma cronológica, comecei a montar o quebra cabeça.
Com este material em mãos, e a parceria do artista gráfico Antonio Kehl, começamos a mixar o acervo com a memória oral.
Mas vamos começar o espetáculo que o pessoal está cansado de esperar. Vou passar a palavra para Roger Avanzi, o narrador guia deste livro, mas antes, com meu martelo de Vulcano, faço questão de eu mesma bater, num pedaço de trilho de trem dependurado, o terceiro sinal.
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